Nos últimos dias, durante a tragédia que está assolando o Estado de Santa Catarina na região Sul do Brasil, ao ligar a televisão qualquer pessoa poderá ver quase a totalidade dos canais disponibilizando espaços em suas grades para chamadas conclamando a população a efetivar doações de qualquer espécie. Seja de depósitos em dinheiro para contas correntes específicas, seja de materiais diversos tais como alimentos, materiais de higiene ou simplesmente água potável, ou até mesmo de serviços de profissionais das mais diversas áreas, num mutirão de solidariedade para aliviar o sofrimento das pessoas daquela região. Mas o que é solidariedade?
Ao se pesquisar essa palavra no dicionário MICHAELIS on-line, o internauta encontrará entre outros significados, os seguintes: “5 Dir Compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas pelas outras e cada uma delas por todas. 6 Sociol Condição grupal resultante da comunhão de atitudes e sentimentos, de modo a constituir o grupo unidade sólida, capaz de resistir às forças exteriores e mesmo de tornar-se ainda mais firme em face da oposição vinda de fora.”
Solidariedade é um sentimento comum a todo ser humano de qualquer parte do planeta, de qualquer raça, credo ou condição financeira e que sempre aflora de modo mais intenso em situações catastróficas. Pois o ato de se penalizar com os infortúnios dos outros, tomando para si a dor de alguém é próprio do bicho homem. É claro que a intensidade deste sentimento difere em alguns povos, seja pela sua própria cultura ou por seu credo religioso. Mas não vem ao caso aqui expor qual cultura ou religião é mais ou menos solidária, uma vez que por essas mesmas diferenças, um determinado povo não aceite ser julgado como menos solidário que outro, justamente por não se enxergar assim. Se este espaço partisse para tal linha de raciocínio, criaria aqui uma discussão que não traria nenhum resultado que pudesse ser considerado positivo, não levando com isso a lugar algum. Para tanto, este blog preferencialmente usará sua página para expor o sentimento de solidariedade especificamente do povo brasileiro.
Sempre que um acontecimento da magnitude como este de Santa Catarina ocorre aqui, percebe-se o quanto a população é capaz de mobilizações instantâneas. Mobilizações estas, ordeiras e que trazem resultados satisfatórios já nas primeiras horas, fazendo com que seja motivo até de admiração e reconhecimento de outros povos. Dificilmente o Brasil se vê na necessidade de lançar mão do apoio de outros países quando ocorrem tais tragédias. E muitos podem tentar explicar que o motivo para tanta sensibilização esteja no fato dele ser um país que, apesar de sua extrema grandeza, não ser palco freqüente de desastres naturais de proporções catastróficas, fazendo com que o brasileiro se sinta mais emocionalmente abalado quando estes acontecimentos ocorrem. Outros podem afirmar que por ser uma nação historicamente cristã, esteja mais suscetível à compaixão e à solidariedade. Até mesmo podem aparecer aqueles que afirmem que este é um povo solidário porque é miscigenado desde sua colonização e por isso viva como irmão mesmo que venha de descendências tão diversas.
É possível a concordância com todas as razões acima descritas, mas com certeza nenhuma delas seja tão significativa quanto o fato de que o Brasil tenha um povo solidário porque, depois de tantos séculos de infortúnios e má distribuição de renda motivados pelos desmandos dos governos, todos aprenderam que têm que dividir mesmo o pouco que conquistaram ao longo de suas vidas. O Brasil é solidário por natureza e desde tenra idade as crianças estão acostumadas a verem seus pais estenderem um prato de comida a um desafortunado que bata à porta.
Porém não se podem confundir os dois tipos de solidariedade aqui demonstradas, que é aquela mobilizada durante as tragédias e aquela vista no dia-a-dia, de amparo a um excluído. Há diferenças marcantes entre elas, pois o ato de ajudar num momento de tragédia prioriza o emergencial, que é suprir as pessoas afetadas com alimentos, remédios, abrigo, assistência médica, social e psicológica, entre outras ações básicas. E a segunda hipótese, que é aquela assistência às pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza, não se pode ser praticada com ações que durem apenas alguns dias. Esse tipo de solidariedade não deve ser encarado como um movimento passageiro, dando a falsa idéia de dever cumprido aos voluntários. Não se pode fazer uma campanha de Natal sem fome doando recursos capazes de encher a barriga dos necessitados num único dia do ano pelo simples fato de ser um dia especial em que os sentimentos estejam mais aflorados. Muito menos se pode entender que seja necessário dar de comer durante todos os dias do ano a estes mesmos necessitados. Por mais belo que seja participar de um movimento de voluntariado, o verdadeiro significado deste tipo de solidariedade é efetivar meios daqueles que precisam de ajuda conseguirem a partir daí, criar condições de não mais serem indigentes e sim, se transformarem em pessoas que possam lutar novamente por suas subsistências, readquirindo suas auto-estimas e se tornarem no futuro novos agentes solidários.
Mônica Serra, presidente do Fundo de Solidariedade e Desenvolvimento Social e Cultural do Estado de São Paulo – FUSSESP transcreve no site do fundo, uma tradução para esta linha de raciocínio da seguinte forma: “A conceituação de solidariedade depende da visão de mundo de cada um de nós: às vezes, a solidariedade é entendida apenas como ajuda eventual a alguém que dela necessita”. Segundo ela, “a verdadeira solidariedade permite ao ser humano superar suas próprias limitações, pavimentando o caminho para seu desenvolvimento integral: sua saúde, sua educação, seu trabalho, a geração autônoma dos recursos de que necessita e o usufruto de sua felicidade. Essa é a solidariedade ativa, a mão que desejamos estender aos nossos semelhantes mais necessitados”. E finaliza: “Ao assumirmos a missão de desenvolver a cidadania através de programas e atividades que possam conscientizar e capacitar pessoas e comunidades, estamos contribuindo para um desenvolvimento sustentável e exercendo nosso dever de aprimorar a independência, a autonomia e a qualidade de vida de nossa população”.
O povo brasileiro é solidário? Sim, o é. E talvez o seja muito mais que outros povos do planeta. A infinidade de organizações governamentais e não governamentais espalhadas em seu vasto território responde essa pergunta. O que é importante para esses órgãos é orientarem os brasileiros a fazerem do voluntariado um movimento positivo, não de simples assistencialismo, mas de condição de tornar real a diminuição e, porque não, extinção da pobreza extrema no país.





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