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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

REFORMA ORTOGRÁFICA

O ano de 2009 promete ser cheio de mudanças, como deve ser de fato todo novo ano. Afinal, esperanças e novas perspectivas fazem parte da natureza humana. E nada mais simbólico do que concentrar estes anseios numa data que representa por si só uma virada. A famosa faxina ou balanço geral de nossas vidas sempre são priorizados nesta época, mesmo que na maioria das vezes tendem a ir por terra já nos primeiros dias do novo ano que começa.

Provavelmente a maior mudança que está acontecendo após a virada não somente para o Brasil, como também para todos os demais países de língua portuguesa, não está sendo provocada pelos efeitos da nova ordem econômica mundial que vai se projetando devido à crise financeira que estourou em 2008. Para os brasileiros e demais povos de língua portuguesa, o ano de 2009 está sendo marcado como o início de um novo tempo onde a grafia da amada língua passou a ser única para todos desde o dia 1º de janeiro, não importando em que parte do planeta esteja o país que a adote como língua oficial. Depois de anos de estudos e discussões, as nações lusófonas por unanimidade decidiram pela unificação da escrita. E como toda mudança causa um misto de contratempos e desconfortos, como também de esperanças e boas expectativas com o novo, assim não será diferente com a reforma ortográfica. E por trazer resultados tão ambíguos, cria-se assim uma divisão entre aqueles que aprovam a reforma e dos que a reprovam.

Exemplificando os contratempos e desconfortos, está a necessidade de se reaprender parte de sua gramática já tão complicada, mesmo que a principal bandeira dos reformistas seja justamente a simplificação do português escrito. Numa entrevista ao g1.globo.com transmitida também no Jornal Nacional da emissora de T.V. do mesmo grupo, o professor de português Pasquale Cipro Neto acha que a população pagará caro por poucos benefícios. Transcrevendo suas palavras: "Mas eu não sei se essa suposta simplificação compensa o custo. O custo é alto. Qual é o custo? É olhar para a estante de um dia para o outro e perceber que tudo que está ali está grafado à maneira antiga. Existe a questão de readaptar as pessoas. As pessoas já letradas. Os programas de computador todos têm que ser alterados. O custo é alto". Deixando explícito com suas palavras que faz parte do grupo dos que são contra a reforma. Porém, vale ressaltar que, apesar de sua objeção contrária, o conceituado professor deixa claro que seguirá as novas regras. Também alguns renomados escritores contrários à unificação, insistem na tese de que escritas diferentes marcam diferença de pensamento. Em defesa da contrariedade expõem o argumento de que as diferenças na escrita caracterizam as diferentes culturas regionais de cada país, dando o caráter único à sua população. Comungam desta última linha de raciocínio os romancistas Milton Hatoum e João Ubaldo Ribeiro, nomes de peso e grande respeito em nossa literatura, reforçando o coro daqueles que são contra essa ideia. Aliás, para escrever a palavra ideia da forma correta atual, tem-se que contrariar o corretor ortográfico do programa Word, que insiste pelo acento agudo na letra e. E esse problema persistirá ainda por algum tempo para todos aqueles que não abrem mão deste recurso do programa, pois segundo Eduardo Campos, gerente de produtividade e colaboração da Microsoft no Brasil, em entrevista no mesmo g1.globo.com, não há uma data definida para atualização do corretor, uma vez que o prazo de transição da nova ortografia vai até 2012, apenas garantindo que ela será fornecida gratuitamente aos usuários.

Já os defensores da reforma/unificação são também letrados de grande respeito nos meios acadêmicos, que reforçam a tese com explicações dignas de atenção. Segundo eles, o português é a única das grandes línguas ocidentais que não tem uma grafia igual em todos os países que a adotam. Ao contrário do espanhol, que apesar das dezenas de países de culturas tão diversas que a possuem como língua pátria, tem apenas uma única forma de escrita para todos.

Entre os inúmeros gramáticos e escritores que apóiam a reforma se encontra Evanildo Bechara, acadêmico considerado um dos maiores conhecedores da língua portuguesa. E como representante da Academia Brasileira de Letras, que é aqui no Brasil a instituição responsável pela reforma, ele defende que ela irá gerar além da dita simplificação, também modernidade à grafia.

Pode parecer até um paradoxo imaginar que logo a ABL, maior guardiã da Língua Portuguesa da maneira que ela é falada e escrita no Brasil e que se apresenta a todos como uma instituição conservadora, seja na verdade a maior defensora de mudança. Porém, isso é explicado nas palavras de Evanildo Bechara: "Toda mudança traz, além da perplexidade, certa má vontade. Ninguém gosta de mudar os seus hábitos. Uma reforma ortográfica nunca é para a geração que a faz, é para o futuro das gerações e o futuro da língua”.

E é seguindo essa sua linha de raciocínio que é apresentado um exemplo interessante que segue transcrito nas próximas linhas. É sobre um aviso comercial bancário, publicado no Jornal O Democrata da cidade de Manhuassú – Minas Geraes (atualmente a grafia correta é Manhuaçu – Minas Gerais) datado de 19 de Outubro de 1930. “O Banco Mercantil do Estado de Minas Geraes communica aos seus clientes que acaba de receber uma nova remessa dos seus cofres portáteis que tão bôa acceitação tiveram por occasião da primeira distribuição. Os referidos cofres, que fornecemos gratuitamente aos depositantes da conta POPULAR causam uma optima impressão sendo de perfeita esthetica. O uso destes cofres desperta nas creanças o espírito de economia e trabalho; sendo estes dois requesitos a base principal da riqueza, podemos affirmar que todos aquelles que fizerem uso dos nossos cofres estão plenamente habilitados a obter riqueza e ter seu futuro garantido. Não deixeis para amanhã a obtenção de tão útil objecto.” Vale ressaltar que esta era a forma da escrita de nossa língua antes do Primeiro Acordo Ortográfico por iniciativa da Academia brasileira de Letras e aprovado pela Academia das Ciências de Lisboa, em 25 de Maio de 1931.

O leitor há de convir que o exemplo acima parece ter sido escrito em uma outra língua. Para aqueles que vieram de uma data posterior à tal reforma, não saberiam quando e como empregar esta grafia. Com certeza para aqueles que estudaram no período em que esta forma de escrita era empregada, a mudança causou tantos ou mais transtornos do que o que está se vendo agora.Só o tempo poderá dizer quem está certo ou errado na defesa de suas ideias (sem acento agudo). Mas o fato é que, como nós mesmos hoje não nos imaginaríamos escrevendo da maneira antiga, também as gerações futuras pensarão o mesmo da forma que escrevemos hoje.

Um comentário:

Unknown disse...

Muito interessante o seu texto. Concordo com a sua fala e acredito que tais reformas vem apenas dar um tom diferente a falta de cultura e ao analfabetismo no Brasil.

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